quinta-feira, 24 de abril de 2014

Entrevista com o grande Historiador Contemporâneo Carlo Ginzburg. Recente, fala sobre seu novo livro: "Medo, reverência, terror” .


 O historiador italiano Carlo Ginzburg discute nova coletânea de ensaios, nos quais analisa peças de propaganda e obras de arte políticas, e avalia a evolução da ‘micro-história’, campo de pesquisas que ele ajudou a difundir


Por Guilherme Freitas

O historiador italiano Carlo Ginzburg, de 74 anos, é um dos pioneiros de um ramo da disciplina conhecido como “micro-história”. O termo, popularizado numa coleção de livros editada por ele nos anos 1980, abrange pesquisas que, em vez da trajetória de nações ou de grandes eventos e seus protagonistas, abordam o passado por meio de figuras anônimas e fatos cotidianos, aprofundando-se em casos particulares para iluminar estruturas mais amplas da sociedade. Ginzburg ajudou a moldar o gênero em obras como “Os andarilhos do bem” (1966), sobre praticantes de um culto de fertilidade na Itália dos séculos XVI e XVII, e “O queijo e os vermes” (1976), no qual investigou a vida de um moleiro da região italiana de Friuli preso e executado sob acusação de heresia em 1599.

Nos quatro ensaios de seu novo livro, “Medo, reverência, terror” (Companhia das Letras), Ginzburg lança esse olhar sobre imagens que se tornaram ícones políticos, de quadros de Pablo Picasso e Jean-Louis David a propagandas de alistamento no Exército. Mas ele continua menos interessado nos protagonistas, sejam artistas ou chefes de Estado em guerra, do que no efeito das imagens sobre o público anônimo. 

No célebre cartaz do Tio Sam com os dizeres “Eu quero você”, e em peças semelhantes de outros países na época da Primeira Guerra, Ginzburg encontra elementos (o olhar frontal, o dedo estendido em direção ao espectador) que remetem a representações medievais de Jesus como alguém que tudo vê. Na capa da primeira edição de “Leviatã” (1651), clássico do filósofo britânico Thomas Hobbes sobre a teoria do contrato social, o Estado é representado como um ser gigante cujo corpo é constituído de inúmeras pessoas, que olham com reverência para a figura formada por elas, sublinha o historiador. Ele mostra ainda como pinturas de Picasso e David, “Guernica” (1937) e “A morte de Marat” (1793), incorporam estruturas clássicas e signos religiosos para dar conta de fenômenos políticos de seu tempo (a Guerra Civil espanhola e os desdobramentos da Revolução Francesa).

Em entrevista por e-mail, Ginzburg analisa um elemento comum entre os ensaios: a ideia de que poderes políticos se apropriam da linguagem da religião para despertar reações de medo, reverência ou terror. Fala também sobre seus métodos de trabalho e analisa a evolução da micro-história nas últimas décadas.

Nos ensaios sobre “Leviatã”, de Hobbes, e cartazes de alistamento para a guerra como o do Tio Sam, você encontra em discursos e na iconografia política elementos que mostram poderes seculares “invadindo” terreno da religião. Como funciona esse fenômeno e quais são suas consequências?

A secularização — termo conveniente mas ambíguo — não é um fenômeno pacífico. É um fenômeno conflituoso e em andamento, que vem invadindo esferas da vida pública e privada dominadas pela religião há séculos ou milênios. (Pela necessidade de concisão, vamos assumir que o significado do termo “religião” é evidente, o que não é o caso.) As imagens são um exemplo desse tipo de invasão: por trás do cartaz do Tio Sam e de seu ancestral britânico, o cartaz de Lord Kitchener, podemos ver gestos que já foram atribuídos a Jesus. Hobbes chamava Leviatã, o símbolo do Estado, de “um Deus mortal”: uma imagem atemorizante. A luta contra ou a favor do secularismo continua diante de nossos olhos. Há poucos anos alguém falou em “retorno das religiões”; mas elas nunca haviam ido embora.

Em outros ensaios, você analisa duas pinturas de Jacques-Louis David e PabloPicasso, “A morte de Marat” e “Guernica”. O que chamou sua atenção nessas obras de arte concebidas como intervenções políticas? 

Por um lado, ambas se relacionavam diretamente com um contexto político imediato e podem ser pensadas como atos políticos. Por outro, tiveram impacto a longo prazo, sobre públicos muito distantes dos originais, no espaço e no tempo. Esse paradoxo aparente pode ser explicado pela análise da linguagem — o estilo, a iconografia — usada por David e Picasso, respectivamente. Nos dois casos, a linguagem tinha raízes (enfatizo o plural) longínquas e heterogêneas. Além disso, ambas nos confrontam com uma presença e uma ausência: a presença das vítimas (Marat, os habitantes de Guernica) e a ausência dos assassinos (Charlotte Corday, os aviões fascistas). Há muito que pensar sobre essas imagens. Costumo insistir na necessidade de “ler devagar” (a definição de Nietzsche para a filologia). Insisto também em “olhar devagar” para as imagens.

Em vez da “grande História”, voltada para o destino das nações e seus protagonistas poderosos, você costuma abordar figuras que, como diz sobre o moleiro Menocchio de “O queijo e os vermes” (1976), são “como nós”. Como a micro-história pode mudar a forma como se pensa a História?

É importante fazer um acréscimo: em “O queijo e os vermes” escrevi que Menocchio é “como nós", mas também “diferente de nós”. Um ancestral — mas também o fragmento de um mundo distante e opaco que foi destruído. Essa distância não pode ser superada pela empatia. Empatia, a identificação emocional com alguém, é um atalho que não funciona, pois pressupõe uma proximidade que não existe. O que precisamos é de filologia, num sentido amplo: precisamos aprender sobre uma linguagem (uma cultura) que é diferente da nossa. Mas concordo totalmente com o que você diz sobre história nacional. Eu quis abordar Menocchio, o moleiro da região de Friuli, com uma perspectiva diferente, ampla — mais ampla que Friuli, mais ampla que a Itália. Se não me engano, a recepção do livro confirma que consegui. A micro-história muda nossa percepção da História de muitas formas. Ela nos ensina a não desdenhar de nada (nem de possíveis temas, nem da escala de observação). Ensina também que a comparação, explícita ou implícita, é inevitável.

Você já citou como influências os historiadores franceses da “Annales”, que enfatizavam temas sociais, e o filósofo italiano Antonio Gramsci, principalmente as teses dele sobre o “subalterno”. Que impacto eles tiveram na sua concepção de micro-história?

Fui profundamente influenciado por um dos historiadores que criou a revista “Annales”: Marc Bloch. Li seu livro “Os reis taumaturgos” (1924) quando tinha 20 anos. Foi uma revelação. Eu não imaginava que um livro de História podia focar em um tema tão marginal como o poder de curar escrófula [tuberculose linfática que causava, entre outros sintomas, infecções de pele], atribuído aos reis na Inglaterra e na França. Nem que um tema tão marginal pudesse revelar algo profundo e crucial como as atitudes enraizadas no povo em relação ao poder real. Mas quando li Bloch eu já estava lendo os “Cadernos do cárcere”, de Gramsci [escritos entre 1929 e 1935 e publicados nos anos 1950], pensador que foi para mim, como para muita gente ao redor do planeta, fundamental. Então procurei traços de culturas subalternas na obra de Bloch — pessoas anônimas, homens e mulheres que vieram de longe para se submeter ao poder de cura dos reis. Em retrospecto, eu me vejo como um estudante participando do diálogo contínuo entre História e Antropologia, que atraiu muitos historiadores nos anos 1960 e 1970, na Itália e em outras partes do mundo. Mais ou menos na mesma época li “Rebeldes primitivos”, de Eric Hobsbawn, assim como o ensaio que ele publicou na revista “Società”, do Partido Comunista Italiano, intitulado “Por uma história das classes subalternas” (não sei dizer se esse texto foi publicado em outras línguas). Era uma leitura dos cadernos de Gramsci pelo prisma da antropologia social britânica. Fiquei muito impressionado. Mais tarde, meu diálogo interno com antropólogos envolveu sobretudo Claude Lévi-Strauss.

Aby Warburg, pensador da história das imagens que buscava relações entre épocas distintas, é uma fonte importante para seus ensaios sobre iconografia política e para sua obra em geral. Que caminhos Warburg pode abrir para um historiador?

Conheci a obra de Warburg nos anos 1960, meu diálogo com ela e com a tradição inspirada por ela continua desde então (publiquei o ensaio “De Warburg a Gombrich” em1966, e outro intitulado “A tesoura de Warburg” em 2013). Sou fascinado pela abordagem de Warburg (mais do que por suas conclusões): sua habilidade em combinar a análise detalhada de um caso com uma perspectiva teórica ampla. “Deus está nos detalhes”, como ele mesmo gostava de dizer. Eu aceitaria essa frase como uma definição da micro-história.

A literatura também está muito presente no seu trabalho. Os ensaios de “Medo, reverência, terror” citam de Proust a Orwell. E a estrutura de seus livros tem características narrativas. O que você aprendeu sobre pesquisa histórica com a literatura?

O romance e a poesia nos transformam em habitantes temporários de mundos ficcionais, ao mesmo tempo próximos e diferentes do mundo real. Para historiadores, a ficção é um alimento e também um desafio. Mas o desafio também pode funcionar ao inverso: “Vou ser o maior historiador do século XIX”, disse Balzac. Nossa abordagem do mundo real está saturada de ficção, e a dos ficcionistas, de História. As duas dimensões estão relacionadas de forma intrincada, por isso devemos estar sempre atentos às fronteiras que existem entre elas. Historiadores abordam esses essas questões de forma mais técnica — mas somos todos confrontados com elas, a cada instante. 

Quais foram as maiores mudanças no campo da historiografia desde que você publicou seu primeiro livro, “Os andarilhos do bem” (1966)?

Muita coisa, claro. Comecei a aprender o ofício de historiador em um mundo dominado pelo confronto entre Estados Unidos e União Soviética e pela descolonização. A União Soviética desapareceu, novos atores se tornaram protagonistas. Instituições europeias foram criadas, mas a Europa é mais marginal hoje do que naquela época. A chamada “globalização”, processo antigo, entrou em ritmo frenético. Historiadores tentam lidar com esses desafios usando ferramentas diversas. A micro-história, ou seja, a história analítica, é uma delas. Hoje o diálogo entre antropólogos e historiadores, que inspirou meu primeiro livro, parece fora de moda. Eu ainda o considero promissor.

"O Queijo e os Vermes" Carlo Ginzburg. Um verdadeiro egrégio.

No inicio do ano de 2013, comecei a ler um livro intitulado: "o Queijo e os Vermes" de autoria do professor italiano Carlo Ginzburg. Onde explora as diversas visões de um simples moleiro que morava na região do Friuli, no nordeste da Itália. À primeira vista, fiquei atraído pelo titulo, e logo em seguida pelo prefácio, e finalmente comecei a ler. E daí por diante decidi hoje, fazer uma contextualização abordando o que achei de mais "importante" acerca desta obra-prima.




                                                             Carlo Ginzburg
                                                                                                            



Carlo Ginzburg nasceu no dia 15 de abril de 1939 na cidade de Turim, na Itália. Sua formação é História e Antropologia. Lecionou nas melhores universidades do mundo tais como: Bolonha, Yale, Princeton, Harvard, Califórnia e Lecce. Em 2006 retornou à Itália para lecionar na Scuola Normale Superiore de Pisa, onde trabalhou até 2010;

Ao pesquisar uma seita italiana de curandeiros e bruxos, o historiador Carlo Ginzburg, deparou-se com um julgamento especialmente detalhado. Tratava-se do depoimento de um simples moleiro que morava na região nordeste da Itália, chamado Domenico Scandella, ou simplesmente Menocchio. Que em pleno século XVI, em 1584 ousara afirmar que o mundo tinha origem na putrefação. "Tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma imensa massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e estes foram o anjos." Com essas palavras, Menocchio deixava os inquisidores admirados, e ao mesmo tempo assustados, por tamanha insolência de um simples homem, pobre e humilde. A partir dessa documentação, nosso pesquisador reconstitui boa parte dos passos de Menocchio, para podermos criar uma hipótese geral sobre a cultura popular da Europa pré-industrial. Esse homem simples, e pobre, que trabalhava de tudo um pouco; horas era moleiro; carpinteiro; marceneiro; pedreiro.  Era casado, e tinha sete filhos. Levava relativamente uma vida tranquila, na pequenina aldeia do Friuli até começar a expor suas opiniões sobre tudo que era inquestionável aos olhos dos eclesiásticos. Ginzburg procura entender suas ideias e questionamentos a partir das perguntas (feitas pelos inquisidores) e pelas respostas (que Menocchio respondia) e onde esse moleiro havia aprendido tanto sobre o mundo. A partir de que livro, Menocchio havia lido, e assimilado tudo que dizia. Principalmente sobre as origens da nossa Terra. E há razão para tanto mistério? Claro que sim. Vejamos: no século XVI, pouquíssimas pessoas tinham acesso a livros; de dez habitantes em uma cidade, apenas um sabia ler e este era o padre; e por último, as repressões que as pessoas sofriam caso fossem flagradas lendo algum livro proibido pela Inquisição, eram severamente punidas, desde torturas até as fogueiras em praças públicas, para servirem de exemplo à comunidade.

Durante a leitura do livro, Ginzburg faz certas observações das quais são de muita importância para podermos ter um "norte" a seguir e não nos atrapalharmos durante a leitura. Por exemplo, na página 101 depois de vários questionamentos entre o inquisidor e o moleiro, Ginzburg faz uma pergunta entre parênteses para poder chegar a um consenso sobre aquele palavrório: "(...) caso contrário, por que teriam conduzido um interrogatório tão detalhado?(...)" pág. 101. Ou seja, faz também com que pensemos sobre esta colocação, não é uma mera pergunta. Vale lembrar, que quando alguém era considerado um herege, por definitivo, os cardeais responsáveis, não toleravam tanto engodo por parte dos acusados. E assim, acabavam de vez, literalmente, com a vida destas pessoas.
Seguindo por esse caminho, nosso pesquisador faz uma apreciação no decorrer do livro: "Muitas vezes vimos aflorar, através das profundíssimas diferenças de linguagem, analogias surpreendentes entre as tendências que norteiam a cultura camponesa que tentamos reconstruir e as de setores mais avançados na cultura quinhentista." pág. 189. Ou seja, é como se uma determinada sociedade fosse feita de "baixo pra cima" do mais alto escalão (nobres, reis) para baixo (camponeses, burgueses) onde as ideias surgem do âmbito das classes dominantes. Esse renovado esforço de obter hegemonia assumiu formas diversas nas várias partes da europa; mas a evangelização do campo po meio dos jesuítas e a organização religiosa capilar baseada na família, executada pelas igrejas protestantes, podem ser associadas numa mesma orientação. A ela equivale-se, em temos de inibição dos processos contra a bruxaria e o rígido controle dos grupos marginalizados, assim como dos forasteiros e ciganos. O caso de Domenico Scandella se encaixa perfeitamente nesse quadro de repressão e extinção da cultura popular.

Sobre este homem, sabemos muitas coisas sobre sua vida, suas ideias, e perspectivas sobre o mundo. Podemos afirmar como no próprio posfácio do livro diz: "Menocchio é um herói, ou mártir da palavra." Devido sua vontade de desbravar todas as impossibilidades que estava à sua frente. Poderia muito bem, fugir. Mas, decidiu enfrentar a ira dos cardeais inquisidores, que de uma certa maneira também aprenderam com o moleiro algo que nem eles mesmos estavam acostumados a ouvirem. Por mais que fossem letrados e capacitados para tal assunto. Menocchio morre como um herói, que por mais que fosse castigado, humilhado e torturado, não iriam de maneira nenhuma amedrontá-lo pela sua perseverança em espalhar novos ideias sobre um Mundo que o próprio mundo não conhecia.




Referências:

GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes. São Paulo. Ed. Companhia de Bolso. 2012

http://www.sscnet.ucla.edu/history/ginzburg/

VAINFAS, RonaldoOs protagonistas anônimos da História: micro-história. Rio de Janeiro: Campus, 2002

Uma sombra que aterroriza a alegria nos estádios de futebol: A Violência entre "torcidas".

Começo a escrever esse texto me perguntando se vale mesmo a pena, morrer por algo tão fútil, tão fugaz e mesquinho quando trata-se de futebol, mundialmente falando ou não. Todos os dias, pelo menos quando há jogos sendo transmitidos para o mundo inteiro, centenas e milhares de pessoas dão uma imensa atenção ao evento que atrai bilhões de dólares e juntamente com esse montante vários fanáticos por seus times. 
A depender de que jogo, e do que esteja valendo - seja um rebaixamento, uma final, uma vaga decisiva - a presença em massa de policiais capacitados e prontos para uma ação de efeito, é de imensa necessidade já que os ânimos dos "torcedores" estarão bastante alterados. Para a professora da Unicamp e com Ph.D em Sociologia do Esporte, Heloísa Reis  diz que : "se o país não conseguiu formar agentes públicos de segurança com mais inteligência, é difícil achar que exista preparo na segurança privada. O Estado não tem como abrir mão da segurança, isso até fere a nossa Constituição" comenta. 



Torcida de Atlético-PR e Vasco entraram em conflito na partida entre as duas equipes no domingo. Quatro torcedores foram levados ao hospital. Foto: GERALDO BUBNIAK / ESTADÃO.ADÃO CONTEÚDO



É difícil lidar com essas pessoas, já que as brigas são agendadas pela Internet, dificultando e muito as investigações, devido a falta de características que poderiam ajudar a prender esses "torcedores" que prejudicam o evento. Muitos desses delinquentes, usam um perfil falso justamente para que ninguém possa saber de quem se trata, e de onde tenha partido tal assunto em questão. Segundo a professora Heloísa: "As brigas ocorrem por história de rivalidade entre clubes e torcidas. Há necessidade de conhecimento do problema, uma avaliação de risco. Esse jogo de domingo era de alto risco, um clube grande poderia ser rebaixado. Deveriam ter procedimentos de prevenção, uma divisão das torcidas por objetos intransponíveis" — argumenta sobre o último jogo do Campeonato Brasileiro onde o Vasco enfrentou o time da casa: o Atlético Paranaense.
Para a professora, as "organizadas" são parte do problema. Ela culpa os organizadores por não evitarem a maioria dos conflitos: "Os grupos violentos de torcedores são constituídos por homens que gostam de brigas e que desejam ser reconhecidos por isso. As organizadas são parte do problema. Em muitas tragédias, há mais erros dos organizadores. Se não há nenhum obstáculo físico entre os torcedores, o organizador falhou. Se não tem a força do Estado, o Estado falhou. Quem tem mais culpa? Aquele que não previu ou quem perdeu a cabeça? Cabe aos organizadores e ao Estado preverem estratégias que impeçam o contato. Falta ao Brasil trabalhar o tema com seriedade.
Certo, vale lembrar que 98,9% das torcidas organizadas do mundo inteiro, seja de países desenvolvidos como: Itália, Inglaterra, Espanha, França, são impulsionadas pelos próprios dirigentes dos clubes, onde oferecem ingressos com metade do preço do mercado, e em algumas ocasiões são gratuitos para os integrantes das organizadas. Segundo o professor doutor George Felipe de Lima Dantas, formado na George Washington University, nos Estados Unidos. Para ele, muitas organizadas são gangues onde a violência e o crime são incentivados: "A grande questão não é a torcida organizada, mas é em nome de quê elas existem? Se os clubes ajudam essas torcidas, eles estão patrocinando essa violência." Entre as propostas para controlar a violência nos estádios está o cadastramento das torcidas organizadas, que está previsto no Estatuto do Torcedor. Atualmente, no Brasil, tramita na Câmara de Vereadores de Porto Alegre um projeto que obriga os clubes a realizarem a identificação  biométrica de quem frequentará a Arena do Grêmio e o Beira-Rio.
— A Argentina tem, fazem um cadastramento de todos os torcedores. É uma medida interessante, o torcedor perde o anonimato — opina o promotor Mendes Júnior.
No Rio Grande do Sul, os principais casos de conflitos são registrados entre torcidas do mesmo time, que brigam pela liderança, como ocorreu com torcidas do Grêmio e do Inter. E assim acontece em todos os estados da federação brasileira, torcidas que se coligam com outras de várias regiões do Brasil para cometerem tais atos de barbaridade.
Para podermos ter um pequena noção de como a violência rompe barreiras, listei alguns confrontos dos quais os choques são praticamente inevitáveis:

  • Roma x Lazio (Itália) 
  • Celtic x Glasgow Rangers (Escócia)
  • Manchester United x Manchester City (Inglaterra)
  • River Plate x Boca Junior (Argentina)
  • Flamengo x Vasco (Brasil)
  • Corinthians x Palmeiras (Brasil)
  • Fenerbahce x Galatasaray (Turquia)
  • Olympiacos x Panathinaikos (Grécia)

Claro, que esses não são os únicos violentos, existem diversos jogos que acontecem muitas brigas que são difíceis de conter. As rivalidades existem desde os primórdios da nossa Terra, cabe às nossas instituições de segurança e principalmente ao Estado, investir em Educação de qualidade para que possamos reverter tais situações. E assim, com o decorrer do tempo essa cultura de violência seja amenizada. Tomando como exemplo casos de sucesso em outros países, devemos apontar caminhos para ajudar a pacificar o futebol e a própria sociedade, a partir do trinômio repressão-prevenção-educação. E ajudar a nós mesmos a descortinar saídas para um futuro melhor, no qual o Brasil sempre será, como dizia o dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues, a “pátria de chuteiras”.


Referências:
http://esporte.uol.com.br/futebol/especiais/violencia.jhtm
http://vejasp.abril.com.br/materia/violencia-nos-estadios
Murad, Maurício. A Violência no Futebol. São Paulo, Ed. Benvirá. 2012


quinta-feira, 28 de março de 2013

Artigo sobre os engenhos de Sta. Luzia do Itanhi - Sergipe.


OS ENGENHOS DE SANTA LUZIA DO ITANHI: UM BRAÇO IMPORTANTE NA ECONOMIA SERGIPANA (1850 - 1900)



Resumo: O objetivo desta pesquisa será verificar o surgimento do município de Santa Luzia do Itanhi e a importância de sua influência econômica e do seu desdobramento territorial, bem como analisar a contribuição da mão-de-obra escrava, à época da ascensão do açúcar  quando funcionavam os engenhos, verificando-se hoje que ainda existem descendentes de escravos no município e qual a sua representação quantitativa, biotípica, cultural e econômica. Por se tratar de uma pesquisa histórica, de base política e sociológica, a sua natureza exige uma análise documental dos dados, através de recursos bibliográficos, acrescidos da investigação dos depoimentos e relatos, para que possam proporcionar resultados significativos. Para a generalização dos dados, o estudo priorizará a amostragem aleatória, estendendo o alcance do estudo para o levantamento e sondagens em campo, considerando as suas especificidades.


Palavras - Chave: Colonização, economia, Engenhos.


INTRODUÇÃO:

Os engenhos têm sido ao longo dos anos objetos de análises e pesquisas de estudiosos brasileiros, desejosos de vasculhar os aspectos históricos que marcaram um período incomparável da nossa história. Com base nessas informações, considero de relevante importância esta pesquisa para o nosso município de Santa Luzia do Itanhi.
Analisar a importância da mão-de-obra escrava na economia de Santa Luzia do Itanhi, verificando nos dias atuais a existência e contribuição de remanescentes de quilombos para o município.
É importante ressaltar que Santa Luzia do Itanhi constitui-se uma das povoações mais antigas de Sergipe, colocando-a assim em lugar de destaque devido às suas marcas deixadas pela história, contribuindo para o enriquecimento da cultura do povo sergipano. Destaca-se a primeira missa celebrada em terras sergipanas em 28 de fevereiro de 1575 pelo padre Gaspar Lourenço e pelo auge da economia sergipana no século XVI sendo o maior produtor de farinha de mandioca da província. É no século XVII que inicia o crescimento da produção canavieira, tornando a base econômica de então Vila de Santa Luzia, hoje os engenhos ainda de pé retratam a veracidade dessa história.
Assim inicialmente tentarei evidenciar a importância do engenho na economia ao longo do processo histórico de Santa Luzia do Itanhi.

1. PANORAMA HISTÓRICO E POLITICO: 

Segundo Freire o (1977) objetivo central da conquista e ocupação estava vinculado diretamente à posição geográfica de Sergipe, pois, facilitaria a expansão econômica das fazendas canavieiras dos dois focos de colonização já estabelecidos na Bahia e Pernambuco, simultaneamente os maiores centros populacionais do Brasil, bem como favorecer a criação de gado. Nesta ocasião, as terras de Sergipe pertenciam à capitania hereditária da Bahia, e representava um perigo, não só pela presença dos franceses que tinham grandes influencia na região, mas por se constituir moradia para escravos e índios, inclusive essa área estava sob controle desses últimos que, aliados aos franceses resistiam às dominações dos portugueses ao mesmo tempo, os franceses com ajuda dos índios realizavam o contrabando do pau-brasil, sem maiores dificuldades.
O processo de violência contra os nativos sergipanos atinge seu ápice em 1590, com a expedição de Cristóvão de Barros para realizar a conquista definitiva da área, executada através do combate aos índios e a submissão destes ao domínio colonial. A partir de então começa, de fato, a ocupação de Sergipe com terras distribuídas aos participantes às expedições, ou seja, o regime sesmarias.
Em 1600 conforme SILVA (2000), a antiga aldeia de São Tomé foi elevada à categoria de povoado, com o nome de Santa Luzia do Itanhi, ficando sua paróquia pertencente à Bahia. Daí por diante, a história não informa notícias da povoação de Santa Luzia do Itanhi, nada registrada sobre o seu desenvolvimento e somente em julho de 1680, quando então retorna a mencioná-la para relatar que a sua paróquia foi separada da Bahia.  Dezoito anos após, 1698, o povoado de Santa Luzia foi elevado à categoria de Vila, por ordem do governador da Bahia Dom João Lencastro, com a denominação oficial de Vila Real de Santa Luzia, e, em 1704 a câmara de Santa Luzia do Itanhi envia um ofício ao rei solicitando a transferência da sede da vila de Santa Luzia do Itanhi para o sítio de Estância, mas o rei discorda.
 Depois de vários pedidos negados, a Câmara de Santa Luzia, em 1831, por Lei de 25 de outubro é transferida para a povoação de Estância, onde residiam quase todas as autoridades da Vila de Santa Luzia e conseguem juntamente com a Câmara Municipal transferi-la para Estância, ficando Santa Luzia reduzida à condição de um simples povoado. Somente quatro anos após (1835), uma resolução da Assembléia Provincial restaurou a sua categoria, desmembrando-a de Estância, a qual permaneceu como povoação independente.
 Entretanto, sua emancipação como município ocorreu em 1848, mediante resolução provincial de 04 de maio. Pelo Decreto Lei Estadual nº 377, de 31 de dezembro de 1943, revogado pelo de nº 533, de 07 de dezembro de 1944, foi modificado o nome de Santa Luzia para Inajaroba. Contudo, em 1948, pela Lei Estadual nº 88 de 25 de novembro de 1948, retorna a se chamar Santa Luzia, acrescido do topônimo Itanhi que significa em tupi "rio de pedras". Itanhi era o nome que os indígenas chamavam o Rio Real.
Desde a sua criação em 1575, pelos padres jesuítas, praticava-se em Santa Luzia do Itanhi a criação de gado e produzia lavoura para consumo interno e comercialização. Entre os cultivos, a mandioca ocupava destaque.

2. PRODUÇÃO AÇUCAREIRA E A CRIAÇÃO DE GADO:

No Brasil a exploração da atividade canavieira iniciou-se no século XVI, objetivando o atendimento do mercado exterior e a ocupação efetiva de grandes áreas no espaço brasileiro, como também promover surgimento de centros urbanos. A cultura da cana se prestava economicamente a grandes plantações.  A atividade agrícola de Sergipe até meados do século XVIII estava também direcionada para a criação de gado e lavouras para consumo interno e para atender ao mercado, ambas servindo para abastecer os Estados da Bahia e Pernambuco.
O gado foi à primeira atividade desenvolvida nos primórdios da colonização em Sergipe, quando era utilizado na alimentação básica e como meio de transportes entre a população trabalhadora nos centros de produção açucareira da Bahia e Pernambuco. A criação de gado determinou a economia colonial de Sergipe, contribuindo para aumentar os interesses expansionistas do capitalismo em sua primeira fase, quando o crescimento do comércio provocou a lenta desintegração das economias internacionais. Conseqüentemente, a conquista e ocupação das terras em Sergipe foi um mero capítulo da colonização brasileira pelos portugueses, que visavam expropriar os indígenas e atender as solicitações do mercado europeu, inicialmente com metais preciosos e em seguida com a cultura de produtos tropicais.
Quando iniciou o crescimento da produção canavieira em Sergipe, nos meados do século XVIII e início do século XIX, a cana de açúcar passa a ser a base da economia de Santa Luzia do Itanhi que procurou aproveitar esse novo ciclo da cana do comércio nacional, aumentando sua produção, objetivando a comercialização no mercado interno e externo.

3. ENGENHOS DE SANTA LUZIA DO ITANHI: 

Conforme LOUREIRO (1999), em Santa Luzia do Itanhi existiu sete engenhos:

"O Engenho São Felix foi fundado, em 1632, por um ancestral dos Vieira, família que até hoje administra a propriedade. Nas primeiras décadas do século XIX, era seu proprietário o Tenente-Coronel Paulo de Souza Vieira. Sua esposa, D. Joaquina Hermelinda da Costa, pois enviuvar, contrai matrimonio com José de Oliveira Leite, o Barão de Timbó. A propriedade do São Felix passa por diversos membros da família Vieira, como o Major Cizenando de Souza Vieira e sua esposa Adelaide Souza Leite. O engenho foi inicialmente movido à roda d'água, produzindo açúcar mascavo. Em 1914, tornou-se usina, passando a produzir açúcar cristal. Suas maquinas pararam entre as décadas de 60 e 70 deste século."  P.23

O Engenho Cedro possui uma das mais antigas tradições patrimoniais de Sergipe, pois sua propriedade permaneceu restrita a apenas duas famílias. "A primeira escritura do Engenho Cedro remonta a 1815, em nome de José de Bittencourt Calazans e Dona Antonia de Vera-Cruz Braque. A propriedade, por herança, passou para seu filho, o Tenente-coronel Joaquim José de Bittencourt Calazans, na primeira metade do século XIX". P.44.

O Engenho Antas teve sua primeira escritura lavrada no ano de 1825, em nome de Manoel da Trindade Braques.
"A família Costa Carvalho foi proprietário sucedânea, através de João Batista Costa Carvalho, e, por herança, de seu filho Clementino Costa Carvalho, e de seus netos, os dois sócios irmãos, Pedro Costa Carvalho e João Batista Costa Carvalho, este conhecido como Banga. O conjunto arquitetônico era composto pelo engenho, uma capela e três casas, das quais a mais antiga era assobradada, implantada no alto de uma das suaves encostas que emolduram o vale." P. 48

O Engenho de Ferro, é muito antigo e foi mantido pelos escravos. Seu primeiro dono teria sido o Major Libânio Cardoso de Menezes. Seu filho primogênito, também Libânio, foi embora de Sergipe, fixando residência no Sul do País, em Santa Catarina. Seu outro filho, João Fontes, tornar-se-ia o dono do Engenho Priapu. Herda o engenho de ferro seu terceiro filho, Alípio Fontes de Menezes, por volta de 1860. Sob a gestão de Alípio, a propriedade torna-se usina no inicio da década de 20 deste século, quando a moeda passa a operar com tração mecânica, funcionando até o inicio dos anos 50. A propriedade foi posteriormente agregada a outra, de nome Santo Antônio. A Fazenda Santo Antônio foi depois vendida à Indústria Amido Glucose S/A, sediada em Estância, e o Engenho de Ferro, ao Sr. Jorge do Prado Leite, que aí administra uma fazenda de gado. P. 77.

O engenho Priapu transformou-se em usina a vapor desde a segunda metade do século XIX e integrava, junto com o engenho Félix Independente, um complexo industrial açucareiro.O Priapu foi à penúltima usina a fechar na região sul de Sergipe, e, nos últimos dez anos, sob a propriedade da família, as terras destinaram-se à criação de gado. Com a desapropriação do Priapu, contam que a casa grande, abandonada, foi sendo aos poucos desmantelada pelos sem-terra para reaproveitamento de seu material no assentamento rural vizinho, desmantelando-se com ela, a memória de um lugar que, no passado, abrigou pujante atividade açucareira.

Do engenho São José, que antes existiam 9.000 hectares de terras e atividade produtiva com abrangência regional, hoje apenas 5% da área do antigo São José, 450 hectares, remanescem de sucessivos desmembramentos da propriedade por divisões de espólio, sendo parte explorada com criação de gado e parte ainda recoberta com vestígios de mata atlântica.

O engenho Castelo localiza-se geograficamente vizinho à cidade de Estância e justaposto à cidade de Santa Luzia do Itanhi. Na propriedade do engenho havia escola, banda de música e até um jornal, "O Pirilampo", um importante ponto de referência cultural para a época. Em 1964 a usina Castelo encerra a sua produção. Em 1989 a propriedade é vendida, a qual atualmente é explorada com pecuária. "O conjunto arquitetônico do Castelo é um dos mais preservados da memória açucareira sergipana".p. 91.
Contudo, na análise de FREIRE (1977): "no século XIX, com a decadência da indústria açucareira em Sergipe, face às condições desfavoráveis do mercado externo, leva alguns produtores de cana a desenvolverem as atividades algodoeiros e a dar destaque à pecuária que passam a ser as novas fontes de lucros em Sergipe."

Em meados do século XX, Sergipe iniciou um novo período de expansão da pecuária e das pastagens. Em Santa Luzia do Itanhi a efetivação desse novo período se processa paulatinamente, após a crise da cana de açúcar que se consolidou na década de 1960, com a substituição desta atividade pelo expansivo aumento da pecuária e da produção de coco. A partir de 1980 ao lado do coco ocorreu também a invasão da citricultura, como uma forma de reduzir os impasses gerados pela queda da produção de cana de açúcar.
Como no final do século XIX a economia de Santa Luzia do Itanhi, girava basicamente em torno da cana de açúcar, a decadência deste produto no mercado e a crescente força política e industrial de Estância ingressou Santa Luzia do Itanhi na decadência e atraso.
Outro fato a ser considerado é que na análise da distribuição da terra do município, evidencia elevado índice de concentração de terra. É um município onde observa-se um número significativo de fazendas improdutivas. As atividades econômicas desenvolvidas nas antigas fazendas de cana de açúcar estão quase que inteiramente explorando a pecuária e a produção de coco, ambas as atividades exigem ocupação de grandes extensões de terra e dispensam de muita mão-de-obra.
Hoje, os habitantes do município vivem da agricultura e pesca de subsistência, e do Fundo de Participação do Município que a prefeitura recebe. Santa Luzia, antes uma das maiores riquezas do País, é hoje um dos 50 municípios mais pobres do Brasil. Sua população estimada é de 15 mil habitantes, dos quais, 24% estão localizados na zona urbana, e os demais na zona rural. A área total do município é de 336,20 Km², e, possui 51 povoados.
Segundo os autores SANTOS E OLIVA (1998), "em Sergipe, foi no começo do século XIX que registrou-se o maior número de escravos no conjunto de sua população, o que coincide com a fase de mais rápido crescimento dos engenhos. Naquele período, os escravos chegaram a representar mais de 1/3 dos habitantes. E, apesar da sua participação nas mais diversas atividades, o trabalhador escravo foi principalmente utilizado nas tarefas agrícolas, especialmente naquelas relacionadas com o cultivo da cana e produção do açúcar. A cana-de-açúcar exigiu braços, sendo crescente a importância do africano, como mão-de-obra escrava.
Segundo LOUREIRO (1999), "abolida a escravatura, ex-escravos optavam pelo trabalho junto aos antigos donos. Esse foi o caso, por exemplo, do Engenho Cedro, onde atuais trabalhadores ainda descendem de antigos escravos de outrora." p. 9.
Também deve ser considerada a contribuição biotipológica, ou seja, cor da pele, cabelos, nariz, lábios e olhos, legada pela larga miscigenação ocorrida desde os primórdios da colonização, bem presentes nos remanescentes de quilombolas, os quais, no município de Santa Luzia do Itanhi, migraram para localidades litorâneas, que compreendem a sede do município, e os povoados: Rua da Palha, Pedra Furada, Crasto, Cajazeiras, Pedra D'Água, Bode, Taboa e Botequim, totalizando aproximadamente 9.000 habitantes.
Para os povoados acima citados, em decorrência do histórico do município, da forte da existência de remanescentes quilombolas, no dia 12 de julho de 2005, através da Fundação Cultural Palmares, conforme Registro no Livro de Cadastro Geral nº 003, Registro 270, f.76, e Portaria nº 32 de 12 de agosto de 2005, publicada no Diário Oficial da União de 19 de agosto de 2005, foi reconhecida a Comunidade Remanescente de Quilombos do Território Luziense.

Desta forma, nota-se que aproximadamente 40% da população é reconhecida como remanescente quilombola, respaldando a importância da contribuição da mão escrava no comércio açucareiro, na constituição dos sete engenhos, bem como na permanência deste povo, contribuindo na formação biotípica, econômica e cultural do município de Santa Luzia do Itanhi.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: 

Com esta breve pesquisa tentaremos recuperar e justificar-se pela necessidade que sentimos enquanto acadêmica, de aprofundar os estudos acerca do surgimento do município de Santa Luzia do Itanhi, considerando sua economia no séc. XIX, comparando aos dias atuais, bem como verificar a existência de remanescentes de quilombos, e qual a sua influência para o município.
A formação da cidadania de um povo se dar quando se conhece e valoriza as suas origens, perpetuando sua história, passando de pai para filho, de educador para o aluno e de cidadão para cidadão. Podemos conhecer a história de um povo através de livros, fotos, monumentos, artes. Para tanto é necessário um amplo movimento político e social dando estrutura e condição para conservação do seu patrimônio.
Com base nas informações aqui alcançadas, consideramos de relevante importância desta pesquisa para a construção da memória histórica do nosso município, a qual agregará valor a este trabalho e a outros que poderão vir a surgir.


Referência Bibliográfica:

FELIX, Loiva Otero. História e Memória: a problemática da pesquisa. Passo Fundo: Edinapj, 1998.

DANTAS, Orlando Vieira. O problema açucareiro de Sergipe. Aracaju: Funcaju, 2000.

FREIRE, Felisbelo Firmo de Oliveira. A História de Sergipe. 2º edição: Aracaju, 1891
 Vida Patriarcal de Sergipe. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

LOUREIRO, Kátia Silva. A Arquitetura Sergipana do Açúcar. Aracaju: Unit, 1999.

ASSIS SOBRINHO, Josué Modesto de. Reordenamento do trabalho: trabalho escravo e livre no nordeste açucareiro, Sergipe 1850/1930. Aracaju

domingo, 24 de março de 2013


Relatório de visita dos engenhos de Sergipe 


ENGENHO SÃO FELIX: 


O primeiro engenho que a turma de Historia de Sergipe II visitou fica localizado em Santa Luzia do Itanhy chamado São Felix, uma curiosa informação referente a este engenho, é que esse, teve seu auge, em meados do final do séc. XVII até o decorrer do séc. XIX. Junto ao auge do "ouro branco", o açúcar, em Sergipe. Sendo assim, dizemos que esse foi um Engenho do tipo “Banguê”, pois era 'pequeno', e que não se sustentava apenas com o cultivo da cana, mas também de alimentos de subsistência cultivados pela agricultura. Rico em muitas histórias, foi casa da família Vieira, que tinham fortes influências políticas e econômicas na província. Chegando ao Engenho, que foi erguido no ano de 1632 e é considerado o segundo engenho mais antigo de Sergipe, a  propriedade foi tombada como patrimônio do Estado em 06 de janeiro de 1984 e passou por uma recente reforma, preservando as suas características originais. Além dos móveis coloniais, a propriedade conserva a antiga senzala na parte inferior do casarão e 250 hectares com pequenos córregos, nascentes, restinga de mata atlântica e estruturas históricas como a chaminé da antiga usina. Hoje a renda gerada na propriedade vem da criação de gado, mas segundo fui informado durante essa visita, o proprietário Sr. Gilberto demonstra interesse em investir na recepção de turistas e visitantes no histórico engenho. O acesso é possível em qualquer clima, já que o mesmo se encontra muito próximo à cidade e tem a boa condição da estrada como sua aliada.

FOTOS: Acervo Particular do Historiador e Professor Lindvaldo - UFS


Fachada
Sala principal

Logo na entrada encontramos uma mesa comum daquele tempo, larga, com gavetas, e uma madeira que resiste muito bem ao tempo. 












FAZENDA CAMAÇARI: 


Ao chegarmos nesta linda fazenda, que fica localizada no município de Itaporanga D' Ajuda, fomos recepcionados pelos atuais proprietários. Dentre eles, Dona Maria Augusta, neta de Arnaldo Rolemberg Garcez. Nessa fazenda, ouvimos a palestra do Prof. Samuel Barros. Conhecedor da historia da Fazenda, o professor falou que a produção de açúcar em Sergipe, pode ser considerada tardia. A Fazenda Camaçari, um espaço de memória, referente ao ciclo do Açúcar em Sergipe.
Sobre a  história da Fazenda, o Prof. Samuel, destaca que no seu início, ela foi um Engenho, e somente com a queda do açúcar em Sergipe, é que irá se tornar fazenda, tendo como atividade principal a criação de gado. A Fazenda Camaçari é banhada pela Bacia Vaza Barris.  Destacou ainda que a primeira fonte escrita, conhecida até hoje, que faça menção á Fazenda Camaçari, se trata de um Livro de Matricula, do ano de 1807. Esse livro faz um levantamento das terras Sergipanas, que naquele período, pertencia a Bahia. Nele, está documentado que a Fazenda Camaçari pertencia à José Ribeiro Lozano. 
E somente em 1855, é que se terá registros escritos, referente a mesma.  Esse, por sua vez se trata de uma das obras de “Orlando Dantas”. Onde relata que a Fazenda Camaçari, era um dos “feudos” sergipanos, ou seja, era um dos responsáveis pela dominação da região. Nesse período, a Fazenda Camaçari pertencia ao Barão de Itaporanga sendo que em 1870, essa fazenda agora pertenceria ao Barão de Estância , proprietário também, do Engenho Escurial, isso através da partilha de bens.  Já em 1890, a Fazenda passou a pertencer a José Correia. Pouco tempo depois a Fazenda volta a pertencer a família do Barão de Estância. Onde posteriormente, João Sobral Garcez herda a fazenda após casar-se com uma bisneta do Barão de Estância. Com a morte de João Sobral, a fazenda passa a pertencer ao seu filho José Rolemberg Garcez. 

FOTOS: Karla Jamylle, discente da UFS.

Fachada bem aberta e com algumas janelas, arquitetura típica daquele tempo.












Parte da mobília da residência. A madeira bem decorada, os vasos tipicos do tempo.
















Igrejinha que fica próximo a casa, simples, pequena, mas riquissima em História.


















FAZENDA DIRA: 


Sobre a estrutura do engenho, esta sofreu muitas modificações. Mas preserva a sua capela que data do ano de 1703.  Sendo de grande importância citar que a Casa Grande só foi construída em 1770, essa a primeira casa que tinha uma estrutura colonial. Já a segunda versão, foi construída aos moldes da arquitetura neogótica. Tem na sua estrutura lapides dentro da Capela. As lapides, eram de ex- proprietários, sendo que quanto mais próximo do altar era a lapide, mais importante era a pessoa.  Quanto a casa, essa é composta por nove quartos, todos com suítes. Mostrando que a parte interna da propriedade foi completamente modificada. Sendo preservada apenas, a fachada da casa. O engenho Dira, é banhado pelo Rio Vaza Barris. O primeiro proprietário foi Antônio Theles de Menezes. Com a sua morte, durante o sec. XX o engenho pertenceu a Família Sobral, já no sec. XXI, ele passou para as mãos do Grupo Maratá.
O prof. Antonio Lindvaldo, em suas falas, citou que uma das pessoas que falam sobre o Engenho Dira, é a Arquiteta Kátia Loureiro. Ela diz que a capela é de arquitetura singela e afastada da casa grande. Já voltando a fala do professor Lindvaldo, esse menciona que os bancos ali dispostos na capela, não são do período da criação da mesma. Já que até o sec. XVIII, as missas eram celebradas em pé. Outro ponto apontado pelo professor foi a presença da imagem de São Benedito, assim como a presença da Cruz.  

FOTOS: 

Fachada principal. Pertencente ao grupo Maratá, a parte interna foi modificada, entretanto a parte externa ficou intacta.










Jardim.










A igrejinha foi construida em 1703, e a casa somente depois, em 1770. Permanece ainda preservada.











FAZENDA SANTA CRUZ;


Nesse belíssimo lugar rodeado de muitas histórias, tivemos uma boa fala da mestranda Priscila que através de suas pesquisas nos falou que a Fazenda Santa Cruz teve como seus primeiros proprietários a Família Bragança. E também nos disse que parte da mobília da fazenda, assim como alguns lustres e objetos de decoração, faziam parte do Engenho Pedras, e foram herdados pelo marido de Dona Baby. Uma informação importante para nós, é que a sala central da Fazenda Santa Cruz, tem a mesma disposição, no que se trata das mobílias, do Engenho Pedras. É  importante mencionar que Dona Baby, residiu no Engenho Pedras durante os anos de 1969 a 1971. Quanto a estrutura interna da casa, estava assim dividida: no primeiro piso se encontra as salas, alguns quartos, cozinha. Já no piso superior estão os quartos e a biblioteca da família. Quanto à mobília, sendo ornamentada com objetos de prata, cristais, coxas e telas que embelezaram toda a casa. Deixando para nós estudantes o sentimento de rememoração do passado, permitido pelo fato da preservação de objetos de memória, importantes para a formação da identidade de um povo.

FOTOS: Karla Jamylle, discente da UFS.

 Fachada principal











Mobília interna da residência.













Uma tela conservada. Era comum, as famílias colocarem quandros em suas paredes para poderem decorar suas paredes. Sinal de exuberância, e arte.

















CONCLUSÃO: 

Enfim, a viagem me proporcionou uma nova visão sobre a cultura do meu Estado inserido na formação do meu país, mostrando uma parte de sua história que é muito importante para os futuros historiadores. A valorização de nossos bens materiais e imateriais é de grande importância, já que é a nossa formação de identidade cultural que mostra a construção de nossa sociedade.