No inicio do ano de 2013, comecei a ler um livro intitulado: "o Queijo e os Vermes" de autoria do professor italiano Carlo Ginzburg. Onde explora as diversas visões de um simples moleiro que morava na região do Friuli, no nordeste da Itália. À primeira vista, fiquei atraído pelo titulo, e logo em seguida pelo prefácio, e finalmente comecei a ler. E daí por diante decidi hoje, fazer uma contextualização abordando o que achei de mais "importante" acerca desta obra-prima.
Carlo Ginzburg
Carlo Ginzburg nasceu no dia 15 de abril de 1939 na cidade de Turim, na Itália. Sua formação é História e Antropologia. Lecionou nas melhores universidades do mundo tais como: Bolonha, Yale, Princeton, Harvard, Califórnia e Lecce. Em 2006 retornou à Itália para lecionar na Scuola Normale Superiore de Pisa, onde trabalhou até 2010;
Ao pesquisar uma seita italiana de curandeiros e bruxos, o historiador Carlo Ginzburg, deparou-se com um julgamento especialmente detalhado. Tratava-se do depoimento de um simples moleiro que morava na região nordeste da Itália, chamado Domenico Scandella, ou simplesmente Menocchio. Que em pleno século XVI, em 1584 ousara afirmar que o mundo tinha origem na putrefação. "Tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma imensa massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e estes foram o anjos." Com essas palavras, Menocchio deixava os inquisidores admirados, e ao mesmo tempo assustados, por tamanha insolência de um simples homem, pobre e humilde. A partir dessa documentação, nosso pesquisador reconstitui boa parte dos passos de Menocchio, para podermos criar uma hipótese geral sobre a cultura popular da Europa pré-industrial. Esse homem simples, e pobre, que trabalhava de tudo um pouco; horas era moleiro; carpinteiro; marceneiro; pedreiro. Era casado, e tinha sete filhos. Levava relativamente uma vida tranquila, na pequenina aldeia do Friuli até começar a expor suas opiniões sobre tudo que era inquestionável aos olhos dos eclesiásticos. Ginzburg procura entender suas ideias e questionamentos a partir das perguntas (feitas pelos inquisidores) e pelas respostas (que Menocchio respondia) e onde esse moleiro havia aprendido tanto sobre o mundo. A partir de que livro, Menocchio havia lido, e assimilado tudo que dizia. Principalmente sobre as origens da nossa Terra. E há razão para tanto mistério? Claro que sim. Vejamos: no século XVI, pouquíssimas pessoas tinham acesso a livros; de dez habitantes em uma cidade, apenas um sabia ler e este era o padre; e por último, as repressões que as pessoas sofriam caso fossem flagradas lendo algum livro proibido pela Inquisição, eram severamente punidas, desde torturas até as fogueiras em praças públicas, para servirem de exemplo à comunidade.
Durante a leitura do livro, Ginzburg faz certas observações das quais são de muita importância para podermos ter um "norte" a seguir e não nos atrapalharmos durante a leitura. Por exemplo, na página 101 depois de vários questionamentos entre o inquisidor e o moleiro, Ginzburg faz uma pergunta entre parênteses para poder chegar a um consenso sobre aquele palavrório: "(...) caso contrário, por que teriam conduzido um interrogatório tão detalhado?(...)" pág. 101. Ou seja, faz também com que pensemos sobre esta colocação, não é uma mera pergunta. Vale lembrar, que quando alguém era considerado um herege, por definitivo, os cardeais responsáveis, não toleravam tanto engodo por parte dos acusados. E assim, acabavam de vez, literalmente, com a vida destas pessoas.
Seguindo por esse caminho, nosso pesquisador faz uma apreciação no decorrer do livro: "Muitas vezes vimos aflorar, através das profundíssimas diferenças de linguagem, analogias surpreendentes entre as tendências que norteiam a cultura camponesa que tentamos reconstruir e as de setores mais avançados na cultura quinhentista." pág. 189. Ou seja, é como se uma determinada sociedade fosse feita de "baixo pra cima" do mais alto escalão (nobres, reis) para baixo (camponeses, burgueses) onde as ideias surgem do âmbito das classes dominantes. Esse renovado esforço de obter hegemonia assumiu formas diversas nas várias partes da europa; mas a evangelização do campo po meio dos jesuítas e a organização religiosa capilar baseada na família, executada pelas igrejas protestantes, podem ser associadas numa mesma orientação. A ela equivale-se, em temos de inibição dos processos contra a bruxaria e o rígido controle dos grupos marginalizados, assim como dos forasteiros e ciganos. O caso de Domenico Scandella se encaixa perfeitamente nesse quadro de repressão e extinção da cultura popular.
Sobre este homem, sabemos muitas coisas sobre sua vida, suas ideias, e perspectivas sobre o mundo. Podemos afirmar como no próprio posfácio do livro diz: "Menocchio é um herói, ou mártir da palavra." Devido sua vontade de desbravar todas as impossibilidades que estava à sua frente. Poderia muito bem, fugir. Mas, decidiu enfrentar a ira dos cardeais inquisidores, que de uma certa maneira também aprenderam com o moleiro algo que nem eles mesmos estavam acostumados a ouvirem. Por mais que fossem letrados e capacitados para tal assunto. Menocchio morre como um herói, que por mais que fosse castigado, humilhado e torturado, não iriam de maneira nenhuma amedrontá-lo pela sua perseverança em espalhar novos ideias sobre um Mundo que o próprio mundo não conhecia.
Referências:
GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes. São Paulo. Ed. Companhia de Bolso. 2012
http://www.sscnet.ucla.edu/history/ginzburg/
VAINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da História: micro-história. Rio de Janeiro: Campus, 2002

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