sábado, 26 de abril de 2014

Poesia da semana: "Circulo Vicioso" do grandioso Machado de Assis.

Sou mais um fã da escrita desse imponente literário brasileiro, que soube como poucos, mostrar a vida de uma forma acentuada em seus escritos. Logo abaixo, a poesia nos convida a observar como "a vida do vizinho é melhor do que a nossa" e com seu estilo irônico, entretanto coerente, coloca-nos a perceber que até na Natureza existe "insatisfações" com suas devidas qualidades. 



Círculo Vicioso


Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:

- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,

que arde no eterno azul, como uma eterna vela !

Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:


- Pudesse eu copiar o transparente lume, 

que, da grega coluna á gótica janela,

contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela !



Mas a lua, fitando o sol, com azedume:


- Misera ! tivesse eu aquela enorme, aquela 

claridade imortal, que toda a luz resume !

Mas o sol, inclinando a rutila capela:


- Pesa-me esta brilhante aureola de nume... 

Enfara-me esta azul e desmedida umbela...

Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O "rock'n roll" da Filosofia Contemporânea: Nota sobre Slavoj Zizek.



Filho único, Slavoj Zizek nasceu em 1949 e passou grande parte de sua vida em Ljubliana, na Eslovênia, quando a pequena capital alpina era ainda integrada a Iugoslávia comunista. Como muitos adolescentes dos antigos estados satélites da URSS, Zizek consumia avidamente a cultura popular ocidental em vez de televisão, livros e filmes aprovados oficialmente. Muito de seu conhecimento do cinema hollywoodiano - um tema que ele escreveu extensivamente bem - foi adquirido durante sua adolescência, quando passava um bom tempo num cinema especializado na exibição de filmes estrangeiros.

Como pessoa pública, Zizek usa a provocação, que é compensada por uma personalidade altamente engajada e afável. Ele crê que o Ocidente se libertou muito prontamente da era comunista e fala para audiências ocidentais de uma posição clara e assumida de profundo conhecedor do assunto. O lado provocativo de Zizek é equilibrado pelo seu impressionante instrução de filosofia e política e por uma apresentação efetiva de si mesmo como um intelectual com um "supercérebro" maior do que a realidade e explosivo em ideias. Ao se engajar em polêmicas, Zizek propositalmente evita brigas ou disputas abertas, uma tática esquematizada para criar um espaço em que a audiência ou o interlocutor tem de se posicionar sobre suas responsabilidades politicas e pessoais. Em seus escritos "(...) Zizek se ocupa principalmente sobre politica, porém sempre explora esse tema por meio de uma gama de assuntos e interesses. Eis alguns dos muito temas sobre os quais escreveu: filmes de Hollywood, ficção popular (Stephen King, Artur Conan Doyle, Agatha Christie), alta literatura (Sófocles, Shakespeare, Kafka), óperas (Mozart, Bizet, e Wagner) (...)". 
Como nosso filósofo abrange diversas áreas de conhecimento acerca de nosso mundo, segui um tema do qual sou muito afetuoso, e que é de muita relevância em nossa sociedade: o Cinema. Zizek, faz análises de diversos filmes e uma delas é sobre um que eu assisti há alguns meses atrás chamado Psicose (1960) do diretor Hitchcock, onde para Zizek, encapsulam a abstração de que cada imperativo mantido pelo superego tem sua contrapartida obscena. Para Slavoj Zizek, os três pisos da casa na colina em Psicose correspondem aos três níveis principais na psique do protagonista do filme, Norman Bates. O piso superior é o superego de Norman; o piso térreo seria o seu ego; e, o porão, seu id, seu inconsciente. A interconexão entre o primeiro e o último desses níveis é mostrada na cena em que Norman leva sua mãe do quarto, no piso superior da casa, para o portão, para assim para escondê-la: a reação da mãe é repreendê-lo, mas ela também aproveita a oportunidade para flertar com o filho.

Ao evitar traçar uma linha ou divisão entre o superego e a obscenidade no inconsciente, Zizek aceita formalmente que todos nós estamos implicados no mais sombrio dos desejos. Essa ideia fica clara em outro filme de Hitchcock - que ainda não assisti - em Janela Indiscreta (1954). Comenta que, "lidando com uma injúria recente, Jeff investe seu tempo observando a vida dos vizinhos. Ao mesmo tempo que observa, ele evita se envolver sexualmente com sua namorada, Lisa alegando que não deseja se comprometer, e nem mesmo se casar. Mas, o que Jeff vê pela janela são as fantasias do que poderia acontecer com ele e Lisa. Eles poderiam se tornar recém-casados felizes; ele poderia abandoná-la; eles poderiam passar o tempo livre juntos, como um casal normal que tem um cãozinho e é complacente com a rotina que mal esconde seu desespero; ou finalmente, ele poderia matá-la."

Como o enredo de Janela Indiscreta mostra Jeff descobre que um de seus vizinhos assassinou a esposa. Numa das cenas, jeff é confrontado pelo autor do crime, de quem ele tenta desesperadamente se livrar por meio de uma cortina de flashes. Zizek nota que essa cena "foi rodada de um modo incrível, completamente irrealista". A cena mostra perfeitamente o efeito mobilizador da própria fantasia de Jeff, e então o assassino reflete o desejo de Jeff de matar Lisa. Longe de traçar uma linha entre vilão e herói, este filme revela como o "herói" é o criminoso que o protagonista observa.

Zizek, na minha opinião tem um imenso leque de observações analíticas, complexas que deixam qualquer leitor (especialista ou não) acha uma leitura densa e ao mesmo tempo bastante radical, devido ao seu extremismo à esquerda. Entretanto, não deixo de negar, que é um dos maiores filósofos da atualidade, fazendo sempre comentários dos quais assustam qualquer "conservador" contemporâneo. Esse pequeno texto, ainda não chega a ser 1% do que realmente Slavoj Zizek retrata do mundo atual, mas creio que é de grande importância expormos nossas visões para nos desgarramos dessa atonia que é nossa sociedade.
Quem quiser poder se aprofundar mais no assunto sobre Zizek, listei abaixo alguns livros, e filme que podem ajudá-los a desvendarem muito mais sobre suas ideias, segue referências:






ZIZEK, Slavoj e DALY. Arriscar o Impossível: conversas com Zizek. São Paulo. Ed. Martins Fontes, 2006.

O Guia Pervertido da Ideologia (filme). Produção: Zietigeist. 2006

ZIZEK, Slavoj. O ano em que sonhamos perigosamente. São Paulo. Ed. Boitempo, 2008

____________ Vivendo no fim dos tempos. São Paulo. Ed. Boitempo. 2007

Resenha sobre o livro: "Brasil em tempo de cinema" Jean Claude Bernadet.



BERNADET, Jean Claude. Brasil em Tempo de Cinema – Ensaio sobre o Cinema Brasileiro de 1958-1966. São Paulo. Cia das Letras. 2007



Este livro de Jean-Claude Bernardet, “Brasil em Tempo de Cinema – Ensaio sobre o Cinema Brasileiro de 1958 a 1966”, relançado no primeiro semestre de 2007 pela editora Companhia das Letras, comemora seus quarenta anos (1ª edição, Civilização Brasileira – 1967) e mantém-se ainda como um texto clássico sobre o assunto. Sem parecer datado, este breve estudo acerca do cinema brasileiro é um painel do país que emergiu no momento histórico posterior à Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), isto é, inicia-se com o fim da ditadura de Getúlio Vargas, passando pelo do populismo com a Era Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, e chegando à derrocada das propostas populistas com o golpe civil-militar de março de 1964, que derrubou o governo de Jango.
O Brasil rural e agroexportador do início do século XX, cede espaço para uma nação que se urbanizava e crescia consideravelmente seu parque industrial, embalado pelas políticas nacionalistas e propagadas pelos governantes. Essa junção sociopolítica e econômica permeou (e influenciou) o desenvolvimento de estéticas narrativas dentro do cinema brasileiro, em um período muito importante de nossa História, ou seja, o final da década de 1950 até 1967, ano que antecede ao fechamento total do regime militar e das resistências ao mesmo, com a edição do Atos Institucionais. O autor, Jean-Claude Bernardet, nasceu na Bélgica, radicado no Brasil desde 1949, sempre exerceu alguma atividade relacionada ao cinema brasileiro. Nos anos de 1960, juntamente com Nelson Pereira dos Santos e Paulo Emilio Salles Gomes, Bernardet tentou criar um curso de cinema na futura Faculdade de Comunicação de Massas, ligada à então criada Universidade Nacional de Brasília (UnB). No entanto, os acontecimentos de março de 1964 abortaram tais planos, afastando involuntariamente Bernardet dos meios acadêmicos.

Em 1967, Brasil em Tempo de Cinema foi editado em forma de ensaio analisando quase uma década do cinema brasileiro (1958/1966); uma cinematografia vinda das chanchadas da Atlântida, das tentativas industriais da Companhia Cinematográfica Vera Cruz e do surgimento, principalmente, do chamado “neo-realismo” brasileiro, indo posteriormente no movimento do “Cinema Novo”. O auge dessa proposta é representado pelo filme Terra em Transe (1967, Glauber Rocha), que foi interditado pela censura do governo Costa e Silva, no mesmo ano de lançamento do livro de Bernardet. Tal obra é comentada no livro, com base apenas em seu roteiro, uma vez que Jean-Claude não assistiu ao filme devido à sua proibição.

Esse episódio fora marcante, pronunciando o declínio do movimento cinemanovista e a emergência de perspectivas cinematográficas mais diversificadas (e contestatórias) como o Cinema Marginal. No final da década de 1960, o cinema brasileiro enfrentava ainda uma enorme crise diante do avanço da televisão, que se difundia como o grande veículo de comunicação de massa, devido às “facilidades” em adquirir eletrodomésticos pela classe média, então beneficiada pelas políticas econômicas instituídas pelos governos militares, que ampliaram e fomentaram o endividamento externo do país, principalmente aos americanos.
Escrito no auge dessa agitação política e cultural, na qual as atitudes e os discursos ideológicos se acentuavam tanto à direita quanto à esquerda, o livro de Bernardet é determinante para entendermos grande parte da formação estética, política e social do cinema brasileiro que foi gerado em um tempo de extremos, onde a vontade pela construção de uma sociedade mais justa chocava-se com as forças reacionárias da política brasileira ainda dominada pelos resquícios do arcaísmo oligárquico e, ao mesmo tempo, pela influência cultural advinda dos “modelos” ditados pelo capitalismo industrial simbolizado pelos norte-americanos.
Vistos recentemente, alguns dos filmes analisados por Bernardet em seu livro comprovam toda a influência, entusiasmo e resistência que aquele cinema (precário tecnicamente, devido à falta de recursos) expressava numa época em que as esperanças sociais e políticas traduziam-se em formas renovadas de manifestações culturais, voltadas para uma realidade nacional repleta de contrastes sociais, políticas e econômicas.

O Cinema Novo, distinto, poético e instigante, às vezes profundo em sua linguagem influenciada pela “intelligentsia” cinematográfica, à partir de 1964 torna-se cada vez mais alegórico e distante do público, em parte devido à implacável perseguição da censura. No entanto, as películas analisadas por Bernardet refletem uma sociedade em movimento; um transe apático que conduzia sempre a lugar nenhum – o Brasil permaneceu “parado” por mais de duas décadas.
Dividido em sete capítulos, o livro de Bernadet faz um aprimorado estudo sobre o cinema brasileiro daquele período. No total, Bernardet analisou e comentou oitenta e dois filmes produzidos no Brasil entre 1958-1966 (as fichas técnicas, completas, encontram-se no final do livro – págs. 201/209), dirigidos (entre outros) por Alex Viany, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman e Carlos Diegues.
Esse Brasil é representado basicamente pela classe média da época, de onde vieram muitos dos cineastas. Jean-Claude ainda faz comentários sobre as políticas culturais e principalmente seu público alvo, focando a importância do cinema brasileiro como representante da identidade cultural do país.


Segundo Bernardet:



[...] Ele é oriundo da própria realidade social, humana, geográfica etc, em que vive o espectador; é um reflexo, uma interpretação dessa realidade (boa ou má, consciente ou não, isto é outro problema). Em decorrência, o filme nacional tem sobre o público um poder de impacto que o estrangeiro não costuma ter. Há quase sempre num filme nacional, independente de sua qualidade, uma provocação que não pode deixar de exigir uma reação do público.


De todos os personagens do cinema brasileiro analisados por Bernardet, Antônio das Mortes (vivido por Maurício do Vale) é o mais emblemático e o que traduziu melhor aquela ocasião (1964) de incertezas que assolava o país, mesma espécie de encruzilhada do destino. Bernadet dedica-lhe seu livro.
O livro de Jean Claude é empolgante e leva o leitor a fazer consideráveis estudos sobre a História recente do Brasil por meio do cinema e de sua linguagem e estética peculiares. Podemos também, no decorrer de uma leitura crítica do texto, perceber algumas contradições obscuras que eram características da oratória conservadora da elite cultural dos anos de 1950/1960 ligadas ao cinema (críticos, jornalistas, historiadores de cineastas de formação neorealista). Para o autor, o cinema nacional é a “identificação do povo com sua cultura”, mas em seu ensaio analítico (com as produções de 1958 a 1966), vários filmes escaparam de sua apreciação crítica, como inúmeras chanchadas na fase final do gênero mais popular da cinematografia brasileira.

Na relação dos filmes apreciados por Bernardet, é lamentável a exclusão de obras como O Homem do Sputinik (1958 – direção: Carlos Manga), uma chanchada que demonstra puramente a importância do gênero na História do cinema brasileiro, negando o estereótipo de “cópia pobre” dos filmes de Hollywood. As chanchadas, de ingênuas, possuíam apenas os títulos, pois eram irônicas, escrachadas e divertidas ao retratar a sociedade brasileira do pós-guerra. O Cinema Novo, produziu o filme Macunaíma (1969 – direção Joaquim Pedro de Andrade), atestando que a severidade divulgada por cineastas como Glauber Rocha não poderia ser regra para a construção de um cinema de autor, engajado politicamente e inovador como arte. Sábiamente, Joaquim Pedro de Andrade absorveu aspectos das chanchadas, inserindo-as no contexto estético do Cinema Novo, comprovando que o radicalismo ou o purismo dentro da arte cinematográfica não deve se transformar em norma inquestionável, em meras leis a serem seguidas.
Esse belo ensaio de Jean-Claude Bernardet, suscita o debate, gera polêmicas, dúvidas e resgata uma época particularmente rica do cinema brasileiro e de nossa história. Obras dessa importância, felizmente, são fadadas à atemporalidade, como o é Antônio das Mortes, ótima metáfora sobre um Brasil do passado, repleto de incertezas. Transcorridos mais de quarenta anos, muitas dúvidas ainda permanecem intactas.








BIBLIOGRAFIA:

BERNADET, Jean Claude. Brasil em Tempo de Cinema – Ensaio sobre o Cinema Brasileiro de 1958-1966. São Paulo. Cia das Letras. 2007

Legado do Império: Um República entre aspas.

Quando os turistas, e as pessoas que ali vivem no Centro do Rio de Janeiro, veem a estátua equestre do nosso primeiro presidente, o alagoano Marechal Deodoro da Fonseca, dar um ar um tanto triunfal diante de nós. Foi feita justamente pra isso, para demonstrar toda sua imponência e soberania à frente de todos que ansiavam por um novo modo de politica para o Brasil. Entretanto, essa "mudança" ocorreu de outra maneira como veremos a seguir.













Estátua do Marechal Deodoro da Fonseca. Inaugurada em 1937, pelo então ex-presidente Getúlio Vargas, durante o Estado Novo.










Marechal Deodoro da Fonseca




Marechal Floriano Peixoto, o "mão de ferro"




Não sei se muitos de vocês perceberam, mas nossos dois primeiros presidentes foram militares, e nenhum dos dois eram republicanos, em qualquer sentido que se possa encaixar ao termo. O nosso alagoano Manuel Deodoro da Fonseca (1827-1892) veterano da Guerra do Paraguai, monarquista até a "última sujeira do dedo mindinho" e amigo do imperador D. Pedro II. Não pensava de forma alguma derrubar o governo instaurado, nem sequer pensava em ser presidente. Daí é que surgiram os primeiros roldões da nossa política brasileira. Pelo fato de que naquela circunstância tratava-se de derrubar o gabinete liberal do Visconde de Ouro Preto, Afonso Celso de Assis Figueiredo, na chamada "Questão Militar". E aí aconteceu de que os militares ligados ao Marechal Deodoro, espalharam a notícia de o ministro ordenara a sua prisão. Mas a decisão do líder militar de dissolver a monarquia ocorreu da informação de que outro politico liberal, o gaúcho Gaspar da Silveira Martins, seu arquirrival pessoal, assumiria o novo gabinete. E de forma nada republicana e hostil, decretou-se a "República".

O primeiro desafio, por conseguinte foi fazer com surtisse efeito. A família imperial foi banida para a Europa (ás escondidas), uma nova constituição fora promulgada (1891) e formalmente, instalada uma descentralização administrativa. Claro que formalmente: porque a constituição assegurava o Federalismo, mas os governos locais não podiam entrar em contradição com o governo central. E assim, a República nascera de uma sob uma ditadura militar. Quem pode afirmar isso são os opositores durante o segundo período presidencial (1891-1894), sob a "mão de ferro" do marechal Floriano Peixoto, alagoano como Deodoro: censura à imprensa, perseguições politicas, execuções.
Em seguida em 1894-1898, o Brasil elege o primeiro civil para a presidência: Prudente de Moraes e depois Campos Sales (1898-1902), eram republicanos da velha estirpe. Seus mandatos foram momentos de distensões politicas, embora a força excessiva do Estado contra a população não tenha deixado de ser usada, como no trágico episódio em Canudos, na região árida da Bahia (1896-1897). Ambos constituíram o Partido Republicano durante o império, apoiaram a luta abolicionista e compuseram a Constituinte que produziu a primeira Carta do novo regime. Havia décadas se empenhavam em reformas sociais e politicas, porque estavam diante de todos os problemas que o país estava passando. Essa geração de 1870, era um grupo de homens letrados, e da politica comprometidos com os valores à época chamados de "civilizados", ou seja, fim da escravidão, participações politicas, educação. Nesse perfil podemos citar: Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Quintino Bocaiúva, André Rebouças, que defendiam a ruptura com as tradições do império e reivindicavam um governo que acreditavam ser científico, tendo como exemplos, as potências da época: Inglaterra e França, uma monarquia e uma república.
Prudente de Moraes faz a primeira tentativa séria de instaurar um governo de fato republicano. Para iniciar, foi eleito, ao contrários dos dois primeiros presidentes. Comparado com o estilo viril de Floriano, sofria com piadas infames do tipo: "ele é prudente demais". Pressionado, acabou despejando toda sua ira na cidade de Antônio Conselheiro e seus discípulos.
Já Campos Sales, paulista como o primeiro, se dedicou à recuperação econômica. Nos anos anteriores, vivera-se uma economia "de guerra" agravada pela crise do encilhamento, em parte resultado da polêmica gestão de Rui Barbosa, como ministro da Fazenda. 

Podemos observar o quão nosso país teve momento de intensas correntes politicas e filosóficas, e que boa parte de nossos governantes apenas enxergavam sua pequena corja de interesses para poderem adquirir mais forças. Isso acontece até os dias atuais, mesmo com toda a fiscalização que acaba por cair em maus gestores e assim corrompendo-se facilitando as práticas mais enojáveis de um político.


Referencias: 

ARQUIVO NACIONAL. Os presidentes e a República. Rio de Janeiro: 2001

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão. 3° ed. São Paulo: Brasiliense, 1989

http: //www.rhbn.com.br

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Entrevista com o grande Historiador Contemporâneo Carlo Ginzburg. Recente, fala sobre seu novo livro: "Medo, reverência, terror” .


 O historiador italiano Carlo Ginzburg discute nova coletânea de ensaios, nos quais analisa peças de propaganda e obras de arte políticas, e avalia a evolução da ‘micro-história’, campo de pesquisas que ele ajudou a difundir


Por Guilherme Freitas

O historiador italiano Carlo Ginzburg, de 74 anos, é um dos pioneiros de um ramo da disciplina conhecido como “micro-história”. O termo, popularizado numa coleção de livros editada por ele nos anos 1980, abrange pesquisas que, em vez da trajetória de nações ou de grandes eventos e seus protagonistas, abordam o passado por meio de figuras anônimas e fatos cotidianos, aprofundando-se em casos particulares para iluminar estruturas mais amplas da sociedade. Ginzburg ajudou a moldar o gênero em obras como “Os andarilhos do bem” (1966), sobre praticantes de um culto de fertilidade na Itália dos séculos XVI e XVII, e “O queijo e os vermes” (1976), no qual investigou a vida de um moleiro da região italiana de Friuli preso e executado sob acusação de heresia em 1599.

Nos quatro ensaios de seu novo livro, “Medo, reverência, terror” (Companhia das Letras), Ginzburg lança esse olhar sobre imagens que se tornaram ícones políticos, de quadros de Pablo Picasso e Jean-Louis David a propagandas de alistamento no Exército. Mas ele continua menos interessado nos protagonistas, sejam artistas ou chefes de Estado em guerra, do que no efeito das imagens sobre o público anônimo. 

No célebre cartaz do Tio Sam com os dizeres “Eu quero você”, e em peças semelhantes de outros países na época da Primeira Guerra, Ginzburg encontra elementos (o olhar frontal, o dedo estendido em direção ao espectador) que remetem a representações medievais de Jesus como alguém que tudo vê. Na capa da primeira edição de “Leviatã” (1651), clássico do filósofo britânico Thomas Hobbes sobre a teoria do contrato social, o Estado é representado como um ser gigante cujo corpo é constituído de inúmeras pessoas, que olham com reverência para a figura formada por elas, sublinha o historiador. Ele mostra ainda como pinturas de Picasso e David, “Guernica” (1937) e “A morte de Marat” (1793), incorporam estruturas clássicas e signos religiosos para dar conta de fenômenos políticos de seu tempo (a Guerra Civil espanhola e os desdobramentos da Revolução Francesa).

Em entrevista por e-mail, Ginzburg analisa um elemento comum entre os ensaios: a ideia de que poderes políticos se apropriam da linguagem da religião para despertar reações de medo, reverência ou terror. Fala também sobre seus métodos de trabalho e analisa a evolução da micro-história nas últimas décadas.

Nos ensaios sobre “Leviatã”, de Hobbes, e cartazes de alistamento para a guerra como o do Tio Sam, você encontra em discursos e na iconografia política elementos que mostram poderes seculares “invadindo” terreno da religião. Como funciona esse fenômeno e quais são suas consequências?

A secularização — termo conveniente mas ambíguo — não é um fenômeno pacífico. É um fenômeno conflituoso e em andamento, que vem invadindo esferas da vida pública e privada dominadas pela religião há séculos ou milênios. (Pela necessidade de concisão, vamos assumir que o significado do termo “religião” é evidente, o que não é o caso.) As imagens são um exemplo desse tipo de invasão: por trás do cartaz do Tio Sam e de seu ancestral britânico, o cartaz de Lord Kitchener, podemos ver gestos que já foram atribuídos a Jesus. Hobbes chamava Leviatã, o símbolo do Estado, de “um Deus mortal”: uma imagem atemorizante. A luta contra ou a favor do secularismo continua diante de nossos olhos. Há poucos anos alguém falou em “retorno das religiões”; mas elas nunca haviam ido embora.

Em outros ensaios, você analisa duas pinturas de Jacques-Louis David e PabloPicasso, “A morte de Marat” e “Guernica”. O que chamou sua atenção nessas obras de arte concebidas como intervenções políticas? 

Por um lado, ambas se relacionavam diretamente com um contexto político imediato e podem ser pensadas como atos políticos. Por outro, tiveram impacto a longo prazo, sobre públicos muito distantes dos originais, no espaço e no tempo. Esse paradoxo aparente pode ser explicado pela análise da linguagem — o estilo, a iconografia — usada por David e Picasso, respectivamente. Nos dois casos, a linguagem tinha raízes (enfatizo o plural) longínquas e heterogêneas. Além disso, ambas nos confrontam com uma presença e uma ausência: a presença das vítimas (Marat, os habitantes de Guernica) e a ausência dos assassinos (Charlotte Corday, os aviões fascistas). Há muito que pensar sobre essas imagens. Costumo insistir na necessidade de “ler devagar” (a definição de Nietzsche para a filologia). Insisto também em “olhar devagar” para as imagens.

Em vez da “grande História”, voltada para o destino das nações e seus protagonistas poderosos, você costuma abordar figuras que, como diz sobre o moleiro Menocchio de “O queijo e os vermes” (1976), são “como nós”. Como a micro-história pode mudar a forma como se pensa a História?

É importante fazer um acréscimo: em “O queijo e os vermes” escrevi que Menocchio é “como nós", mas também “diferente de nós”. Um ancestral — mas também o fragmento de um mundo distante e opaco que foi destruído. Essa distância não pode ser superada pela empatia. Empatia, a identificação emocional com alguém, é um atalho que não funciona, pois pressupõe uma proximidade que não existe. O que precisamos é de filologia, num sentido amplo: precisamos aprender sobre uma linguagem (uma cultura) que é diferente da nossa. Mas concordo totalmente com o que você diz sobre história nacional. Eu quis abordar Menocchio, o moleiro da região de Friuli, com uma perspectiva diferente, ampla — mais ampla que Friuli, mais ampla que a Itália. Se não me engano, a recepção do livro confirma que consegui. A micro-história muda nossa percepção da História de muitas formas. Ela nos ensina a não desdenhar de nada (nem de possíveis temas, nem da escala de observação). Ensina também que a comparação, explícita ou implícita, é inevitável.

Você já citou como influências os historiadores franceses da “Annales”, que enfatizavam temas sociais, e o filósofo italiano Antonio Gramsci, principalmente as teses dele sobre o “subalterno”. Que impacto eles tiveram na sua concepção de micro-história?

Fui profundamente influenciado por um dos historiadores que criou a revista “Annales”: Marc Bloch. Li seu livro “Os reis taumaturgos” (1924) quando tinha 20 anos. Foi uma revelação. Eu não imaginava que um livro de História podia focar em um tema tão marginal como o poder de curar escrófula [tuberculose linfática que causava, entre outros sintomas, infecções de pele], atribuído aos reis na Inglaterra e na França. Nem que um tema tão marginal pudesse revelar algo profundo e crucial como as atitudes enraizadas no povo em relação ao poder real. Mas quando li Bloch eu já estava lendo os “Cadernos do cárcere”, de Gramsci [escritos entre 1929 e 1935 e publicados nos anos 1950], pensador que foi para mim, como para muita gente ao redor do planeta, fundamental. Então procurei traços de culturas subalternas na obra de Bloch — pessoas anônimas, homens e mulheres que vieram de longe para se submeter ao poder de cura dos reis. Em retrospecto, eu me vejo como um estudante participando do diálogo contínuo entre História e Antropologia, que atraiu muitos historiadores nos anos 1960 e 1970, na Itália e em outras partes do mundo. Mais ou menos na mesma época li “Rebeldes primitivos”, de Eric Hobsbawn, assim como o ensaio que ele publicou na revista “Società”, do Partido Comunista Italiano, intitulado “Por uma história das classes subalternas” (não sei dizer se esse texto foi publicado em outras línguas). Era uma leitura dos cadernos de Gramsci pelo prisma da antropologia social britânica. Fiquei muito impressionado. Mais tarde, meu diálogo interno com antropólogos envolveu sobretudo Claude Lévi-Strauss.

Aby Warburg, pensador da história das imagens que buscava relações entre épocas distintas, é uma fonte importante para seus ensaios sobre iconografia política e para sua obra em geral. Que caminhos Warburg pode abrir para um historiador?

Conheci a obra de Warburg nos anos 1960, meu diálogo com ela e com a tradição inspirada por ela continua desde então (publiquei o ensaio “De Warburg a Gombrich” em1966, e outro intitulado “A tesoura de Warburg” em 2013). Sou fascinado pela abordagem de Warburg (mais do que por suas conclusões): sua habilidade em combinar a análise detalhada de um caso com uma perspectiva teórica ampla. “Deus está nos detalhes”, como ele mesmo gostava de dizer. Eu aceitaria essa frase como uma definição da micro-história.

A literatura também está muito presente no seu trabalho. Os ensaios de “Medo, reverência, terror” citam de Proust a Orwell. E a estrutura de seus livros tem características narrativas. O que você aprendeu sobre pesquisa histórica com a literatura?

O romance e a poesia nos transformam em habitantes temporários de mundos ficcionais, ao mesmo tempo próximos e diferentes do mundo real. Para historiadores, a ficção é um alimento e também um desafio. Mas o desafio também pode funcionar ao inverso: “Vou ser o maior historiador do século XIX”, disse Balzac. Nossa abordagem do mundo real está saturada de ficção, e a dos ficcionistas, de História. As duas dimensões estão relacionadas de forma intrincada, por isso devemos estar sempre atentos às fronteiras que existem entre elas. Historiadores abordam esses essas questões de forma mais técnica — mas somos todos confrontados com elas, a cada instante. 

Quais foram as maiores mudanças no campo da historiografia desde que você publicou seu primeiro livro, “Os andarilhos do bem” (1966)?

Muita coisa, claro. Comecei a aprender o ofício de historiador em um mundo dominado pelo confronto entre Estados Unidos e União Soviética e pela descolonização. A União Soviética desapareceu, novos atores se tornaram protagonistas. Instituições europeias foram criadas, mas a Europa é mais marginal hoje do que naquela época. A chamada “globalização”, processo antigo, entrou em ritmo frenético. Historiadores tentam lidar com esses desafios usando ferramentas diversas. A micro-história, ou seja, a história analítica, é uma delas. Hoje o diálogo entre antropólogos e historiadores, que inspirou meu primeiro livro, parece fora de moda. Eu ainda o considero promissor.

"O Queijo e os Vermes" Carlo Ginzburg. Um verdadeiro egrégio.

No inicio do ano de 2013, comecei a ler um livro intitulado: "o Queijo e os Vermes" de autoria do professor italiano Carlo Ginzburg. Onde explora as diversas visões de um simples moleiro que morava na região do Friuli, no nordeste da Itália. À primeira vista, fiquei atraído pelo titulo, e logo em seguida pelo prefácio, e finalmente comecei a ler. E daí por diante decidi hoje, fazer uma contextualização abordando o que achei de mais "importante" acerca desta obra-prima.




                                                             Carlo Ginzburg
                                                                                                            



Carlo Ginzburg nasceu no dia 15 de abril de 1939 na cidade de Turim, na Itália. Sua formação é História e Antropologia. Lecionou nas melhores universidades do mundo tais como: Bolonha, Yale, Princeton, Harvard, Califórnia e Lecce. Em 2006 retornou à Itália para lecionar na Scuola Normale Superiore de Pisa, onde trabalhou até 2010;

Ao pesquisar uma seita italiana de curandeiros e bruxos, o historiador Carlo Ginzburg, deparou-se com um julgamento especialmente detalhado. Tratava-se do depoimento de um simples moleiro que morava na região nordeste da Itália, chamado Domenico Scandella, ou simplesmente Menocchio. Que em pleno século XVI, em 1584 ousara afirmar que o mundo tinha origem na putrefação. "Tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma imensa massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e estes foram o anjos." Com essas palavras, Menocchio deixava os inquisidores admirados, e ao mesmo tempo assustados, por tamanha insolência de um simples homem, pobre e humilde. A partir dessa documentação, nosso pesquisador reconstitui boa parte dos passos de Menocchio, para podermos criar uma hipótese geral sobre a cultura popular da Europa pré-industrial. Esse homem simples, e pobre, que trabalhava de tudo um pouco; horas era moleiro; carpinteiro; marceneiro; pedreiro.  Era casado, e tinha sete filhos. Levava relativamente uma vida tranquila, na pequenina aldeia do Friuli até começar a expor suas opiniões sobre tudo que era inquestionável aos olhos dos eclesiásticos. Ginzburg procura entender suas ideias e questionamentos a partir das perguntas (feitas pelos inquisidores) e pelas respostas (que Menocchio respondia) e onde esse moleiro havia aprendido tanto sobre o mundo. A partir de que livro, Menocchio havia lido, e assimilado tudo que dizia. Principalmente sobre as origens da nossa Terra. E há razão para tanto mistério? Claro que sim. Vejamos: no século XVI, pouquíssimas pessoas tinham acesso a livros; de dez habitantes em uma cidade, apenas um sabia ler e este era o padre; e por último, as repressões que as pessoas sofriam caso fossem flagradas lendo algum livro proibido pela Inquisição, eram severamente punidas, desde torturas até as fogueiras em praças públicas, para servirem de exemplo à comunidade.

Durante a leitura do livro, Ginzburg faz certas observações das quais são de muita importância para podermos ter um "norte" a seguir e não nos atrapalharmos durante a leitura. Por exemplo, na página 101 depois de vários questionamentos entre o inquisidor e o moleiro, Ginzburg faz uma pergunta entre parênteses para poder chegar a um consenso sobre aquele palavrório: "(...) caso contrário, por que teriam conduzido um interrogatório tão detalhado?(...)" pág. 101. Ou seja, faz também com que pensemos sobre esta colocação, não é uma mera pergunta. Vale lembrar, que quando alguém era considerado um herege, por definitivo, os cardeais responsáveis, não toleravam tanto engodo por parte dos acusados. E assim, acabavam de vez, literalmente, com a vida destas pessoas.
Seguindo por esse caminho, nosso pesquisador faz uma apreciação no decorrer do livro: "Muitas vezes vimos aflorar, através das profundíssimas diferenças de linguagem, analogias surpreendentes entre as tendências que norteiam a cultura camponesa que tentamos reconstruir e as de setores mais avançados na cultura quinhentista." pág. 189. Ou seja, é como se uma determinada sociedade fosse feita de "baixo pra cima" do mais alto escalão (nobres, reis) para baixo (camponeses, burgueses) onde as ideias surgem do âmbito das classes dominantes. Esse renovado esforço de obter hegemonia assumiu formas diversas nas várias partes da europa; mas a evangelização do campo po meio dos jesuítas e a organização religiosa capilar baseada na família, executada pelas igrejas protestantes, podem ser associadas numa mesma orientação. A ela equivale-se, em temos de inibição dos processos contra a bruxaria e o rígido controle dos grupos marginalizados, assim como dos forasteiros e ciganos. O caso de Domenico Scandella se encaixa perfeitamente nesse quadro de repressão e extinção da cultura popular.

Sobre este homem, sabemos muitas coisas sobre sua vida, suas ideias, e perspectivas sobre o mundo. Podemos afirmar como no próprio posfácio do livro diz: "Menocchio é um herói, ou mártir da palavra." Devido sua vontade de desbravar todas as impossibilidades que estava à sua frente. Poderia muito bem, fugir. Mas, decidiu enfrentar a ira dos cardeais inquisidores, que de uma certa maneira também aprenderam com o moleiro algo que nem eles mesmos estavam acostumados a ouvirem. Por mais que fossem letrados e capacitados para tal assunto. Menocchio morre como um herói, que por mais que fosse castigado, humilhado e torturado, não iriam de maneira nenhuma amedrontá-lo pela sua perseverança em espalhar novos ideias sobre um Mundo que o próprio mundo não conhecia.




Referências:

GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes. São Paulo. Ed. Companhia de Bolso. 2012

http://www.sscnet.ucla.edu/history/ginzburg/

VAINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da História: micro-história. Rio de Janeiro: Campus, 2002

Uma sombra que aterroriza a alegria nos estádios de futebol: A Violência entre "torcidas".

Começo a escrever esse texto me perguntando se vale mesmo a pena, morrer por algo tão fútil, tão fugaz e mesquinho quando trata-se de futebol, mundialmente falando ou não. Todos os dias, pelo menos quando há jogos sendo transmitidos para o mundo inteiro, centenas e milhares de pessoas dão uma imensa atenção ao evento que atrai bilhões de dólares e juntamente com esse montante vários fanáticos por seus times. 
A depender de que jogo, e do que esteja valendo - seja um rebaixamento, uma final, uma vaga decisiva - a presença em massa de policiais capacitados e prontos para uma ação de efeito, é de imensa necessidade já que os ânimos dos "torcedores" estarão bastante alterados. Para a professora da Unicamp e com Ph.D em Sociologia do Esporte, Heloísa Reis  diz que : "se o país não conseguiu formar agentes públicos de segurança com mais inteligência, é difícil achar que exista preparo na segurança privada. O Estado não tem como abrir mão da segurança, isso até fere a nossa Constituição" comenta. 



Torcida de Atlético-PR e Vasco entraram em conflito na partida entre as duas equipes no domingo. Quatro torcedores foram levados ao hospital. Foto: GERALDO BUBNIAK / ESTADÃO.ADÃO CONTEÚDO



É difícil lidar com essas pessoas, já que as brigas são agendadas pela Internet, dificultando e muito as investigações, devido a falta de características que poderiam ajudar a prender esses "torcedores" que prejudicam o evento. Muitos desses delinquentes, usam um perfil falso justamente para que ninguém possa saber de quem se trata, e de onde tenha partido tal assunto em questão. Segundo a professora Heloísa: "As brigas ocorrem por história de rivalidade entre clubes e torcidas. Há necessidade de conhecimento do problema, uma avaliação de risco. Esse jogo de domingo era de alto risco, um clube grande poderia ser rebaixado. Deveriam ter procedimentos de prevenção, uma divisão das torcidas por objetos intransponíveis" — argumenta sobre o último jogo do Campeonato Brasileiro onde o Vasco enfrentou o time da casa: o Atlético Paranaense.
Para a professora, as "organizadas" são parte do problema. Ela culpa os organizadores por não evitarem a maioria dos conflitos: "Os grupos violentos de torcedores são constituídos por homens que gostam de brigas e que desejam ser reconhecidos por isso. As organizadas são parte do problema. Em muitas tragédias, há mais erros dos organizadores. Se não há nenhum obstáculo físico entre os torcedores, o organizador falhou. Se não tem a força do Estado, o Estado falhou. Quem tem mais culpa? Aquele que não previu ou quem perdeu a cabeça? Cabe aos organizadores e ao Estado preverem estratégias que impeçam o contato. Falta ao Brasil trabalhar o tema com seriedade.
Certo, vale lembrar que 98,9% das torcidas organizadas do mundo inteiro, seja de países desenvolvidos como: Itália, Inglaterra, Espanha, França, são impulsionadas pelos próprios dirigentes dos clubes, onde oferecem ingressos com metade do preço do mercado, e em algumas ocasiões são gratuitos para os integrantes das organizadas. Segundo o professor doutor George Felipe de Lima Dantas, formado na George Washington University, nos Estados Unidos. Para ele, muitas organizadas são gangues onde a violência e o crime são incentivados: "A grande questão não é a torcida organizada, mas é em nome de quê elas existem? Se os clubes ajudam essas torcidas, eles estão patrocinando essa violência." Entre as propostas para controlar a violência nos estádios está o cadastramento das torcidas organizadas, que está previsto no Estatuto do Torcedor. Atualmente, no Brasil, tramita na Câmara de Vereadores de Porto Alegre um projeto que obriga os clubes a realizarem a identificação  biométrica de quem frequentará a Arena do Grêmio e o Beira-Rio.
— A Argentina tem, fazem um cadastramento de todos os torcedores. É uma medida interessante, o torcedor perde o anonimato — opina o promotor Mendes Júnior.
No Rio Grande do Sul, os principais casos de conflitos são registrados entre torcidas do mesmo time, que brigam pela liderança, como ocorreu com torcidas do Grêmio e do Inter. E assim acontece em todos os estados da federação brasileira, torcidas que se coligam com outras de várias regiões do Brasil para cometerem tais atos de barbaridade.
Para podermos ter um pequena noção de como a violência rompe barreiras, listei alguns confrontos dos quais os choques são praticamente inevitáveis:

  • Roma x Lazio (Itália) 
  • Celtic x Glasgow Rangers (Escócia)
  • Manchester United x Manchester City (Inglaterra)
  • River Plate x Boca Junior (Argentina)
  • Flamengo x Vasco (Brasil)
  • Corinthians x Palmeiras (Brasil)
  • Fenerbahce x Galatasaray (Turquia)
  • Olympiacos x Panathinaikos (Grécia)

Claro, que esses não são os únicos violentos, existem diversos jogos que acontecem muitas brigas que são difíceis de conter. As rivalidades existem desde os primórdios da nossa Terra, cabe às nossas instituições de segurança e principalmente ao Estado, investir em Educação de qualidade para que possamos reverter tais situações. E assim, com o decorrer do tempo essa cultura de violência seja amenizada. Tomando como exemplo casos de sucesso em outros países, devemos apontar caminhos para ajudar a pacificar o futebol e a própria sociedade, a partir do trinômio repressão-prevenção-educação. E ajudar a nós mesmos a descortinar saídas para um futuro melhor, no qual o Brasil sempre será, como dizia o dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues, a “pátria de chuteiras”.


Referências:
http://esporte.uol.com.br/futebol/especiais/violencia.jhtm
http://vejasp.abril.com.br/materia/violencia-nos-estadios
Murad, Maurício. A Violência no Futebol. São Paulo, Ed. Benvirá. 2012