BERNADET, Jean Claude. Brasil em Tempo de Cinema – Ensaio sobre o Cinema Brasileiro de
1958-1966. São Paulo. Cia das Letras. 2007
Este
livro de Jean-Claude Bernardet, “Brasil
em Tempo de Cinema – Ensaio sobre o Cinema Brasileiro de 1958 a 1966”, relançado
no primeiro semestre de 2007 pela editora Companhia das Letras, comemora seus
quarenta anos (1ª edição, Civilização Brasileira – 1967) e mantém-se ainda como
um texto clássico sobre o assunto. Sem parecer datado, este breve estudo acerca
do cinema brasileiro é um painel do país que emergiu no momento histórico
posterior à Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), isto é, inicia-se com o fim
da ditadura de Getúlio Vargas, passando pelo do populismo com a Era Juscelino
Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, e chegando à derrocada das propostas
populistas com o golpe civil-militar de março de 1964, que derrubou o governo
de Jango.
O
Brasil rural e agroexportador do início do século XX, cede espaço para uma nação
que se urbanizava e crescia consideravelmente seu parque industrial, embalado
pelas políticas nacionalistas e propagadas pelos governantes. Essa junção
sociopolítica e econômica permeou (e influenciou) o desenvolvimento de
estéticas narrativas dentro do cinema brasileiro, em um período muito importante
de nossa História, ou seja, o final da década de 1950 até 1967, ano que
antecede ao fechamento total do regime militar e das resistências ao mesmo, com
a edição do Atos Institucionais. O
autor, Jean-Claude Bernardet, nasceu na Bélgica, radicado no Brasil desde 1949,
sempre exerceu alguma atividade relacionada ao cinema brasileiro. Nos anos de
1960, juntamente com Nelson Pereira dos Santos e Paulo Emilio Salles Gomes,
Bernardet tentou criar um curso de cinema na futura Faculdade de Comunicação de
Massas, ligada à então criada Universidade Nacional de Brasília (UnB). No
entanto, os acontecimentos de março de 1964 abortaram tais planos, afastando
involuntariamente Bernardet dos meios acadêmicos.
Em
1967, Brasil em Tempo de Cinema foi
editado em forma de ensaio analisando quase uma década do cinema brasileiro (1958/1966);
uma cinematografia vinda das chanchadas da Atlântida, das tentativas
industriais da Companhia Cinematográfica Vera Cruz e do surgimento,
principalmente, do chamado “neo-realismo” brasileiro, indo posteriormente no
movimento do “Cinema Novo”. O auge dessa proposta é representado pelo filme Terra
em Transe (1967, Glauber
Rocha), que foi interditado pela censura do governo Costa e Silva, no mesmo ano
de lançamento do livro de Bernardet. Tal obra é comentada no livro, com base
apenas em seu roteiro, uma vez que Jean-Claude não assistiu ao filme devido à
sua proibição.
Esse
episódio fora marcante, pronunciando o declínio do movimento cinemanovista e a
emergência de perspectivas cinematográficas mais diversificadas (e
contestatórias) como o Cinema Marginal. No final da década de 1960, o cinema
brasileiro enfrentava ainda uma enorme crise diante do avanço da televisão, que
se difundia como o grande veículo de comunicação de massa, devido às “facilidades”
em adquirir eletrodomésticos pela classe média, então beneficiada pelas políticas
econômicas instituídas pelos governos militares, que ampliaram e fomentaram o
endividamento externo do país, principalmente aos americanos.
Escrito
no auge dessa agitação política e cultural, na qual as atitudes e os discursos
ideológicos se acentuavam tanto à direita quanto à esquerda, o livro de Bernardet
é determinante para entendermos grande parte da formação estética, política e social
do cinema brasileiro que foi gerado em um tempo de extremos, onde a vontade
pela construção de uma sociedade mais justa chocava-se com as forças reacionárias
da política brasileira ainda dominada pelos resquícios do arcaísmo oligárquico
e, ao mesmo tempo, pela influência cultural advinda dos “modelos” ditados pelo
capitalismo industrial simbolizado pelos norte-americanos.
Vistos
recentemente, alguns dos filmes analisados por Bernardet em seu livro
comprovam
toda a influência, entusiasmo e resistência que aquele cinema (precário tecnicamente,
devido à falta de recursos) expressava numa época em que as esperanças sociais
e políticas traduziam-se em formas renovadas de manifestações culturais,
voltadas para uma realidade nacional repleta de contrastes sociais, políticas e
econômicas.
O
Cinema Novo, distinto, poético e instigante, às vezes profundo em sua linguagem
influenciada pela “intelligentsia” cinematográfica, à partir de 1964 torna-se cada
vez mais alegórico e distante do público, em parte devido à implacável
perseguição da censura. No entanto, as películas analisadas por Bernardet
refletem uma sociedade em movimento; um transe apático que conduzia sempre a
lugar nenhum – o Brasil permaneceu “parado” por mais de duas décadas.
Dividido
em sete capítulos, o livro de Bernadet faz um aprimorado estudo sobre o cinema
brasileiro daquele período. No total, Bernardet analisou e comentou oitenta e
dois filmes produzidos no Brasil entre 1958-1966 (as fichas técnicas,
completas, encontram-se no final do livro – págs. 201/209), dirigidos (entre outros)
por Alex Viany, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Paulo César Saraceni,
Leon Hirszman e Carlos Diegues.
Esse
Brasil é representado basicamente pela classe média da época, de onde vieram muitos
dos cineastas. Jean-Claude ainda faz comentários sobre as políticas culturais e
principalmente seu público alvo, focando a importância do cinema brasileiro
como representante da identidade cultural do país.
Segundo Bernardet:
[...] Ele é oriundo da própria realidade social, humana, geográfica etc, em que vive o espectador; é um reflexo, uma interpretação dessa realidade (boa ou má, consciente ou não, isto é outro problema). Em decorrência, o filme nacional tem sobre o público um poder de impacto que o estrangeiro não costuma ter. Há quase sempre num filme nacional, independente de sua qualidade, uma provocação que não pode deixar de exigir uma reação do público.
De todos os personagens do cinema brasileiro analisados por Bernardet, Antônio das Mortes (vivido por Maurício do Vale) é o mais emblemático e o que traduziu melhor aquela ocasião (1964) de incertezas que assolava o país, mesma espécie de encruzilhada do destino. Bernadet dedica-lhe seu livro.
O
livro de Jean Claude é empolgante e leva o leitor a fazer consideráveis estudos
sobre a História recente do Brasil por meio do cinema e de sua linguagem e
estética peculiares. Podemos também, no decorrer de uma leitura crítica do
texto, perceber algumas contradições obscuras que eram características da oratória
conservadora da elite cultural dos anos de 1950/1960 ligadas ao cinema
(críticos, jornalistas, historiadores de cineastas de formação neorealista).
Para o autor, o cinema nacional é a “identificação do povo com sua cultura”,
mas em seu ensaio analítico (com as produções de 1958 a 1966), vários filmes
escaparam de sua apreciação crítica, como inúmeras chanchadas na fase final do
gênero mais popular da cinematografia brasileira.
Na
relação dos filmes apreciados por Bernardet, é lamentável a exclusão de obras
como O Homem do Sputinik (1958 – direção: Carlos Manga), uma chanchada
que demonstra puramente a importância do gênero na História do cinema brasileiro,
negando o estereótipo de “cópia pobre” dos filmes de Hollywood. As chanchadas,
de ingênuas, possuíam apenas os títulos, pois eram irônicas, escrachadas e
divertidas ao retratar a sociedade brasileira do pós-guerra. O Cinema Novo,
produziu o filme Macunaíma (1969 – direção Joaquim Pedro de Andrade),
atestando que a severidade divulgada por cineastas como Glauber Rocha não
poderia ser regra para a construção de um cinema de autor, engajado politicamente
e inovador como arte. Sábiamente, Joaquim Pedro de Andrade absorveu aspectos
das chanchadas, inserindo-as no contexto estético do Cinema Novo, comprovando
que o radicalismo ou o purismo dentro da arte cinematográfica não deve se
transformar em norma inquestionável, em meras leis a serem seguidas.
Esse belo ensaio de Jean-Claude Bernardet, suscita o debate, gera
polêmicas, dúvidas e resgata uma época particularmente rica do cinema
brasileiro e de nossa história. Obras dessa importância, felizmente, são
fadadas à atemporalidade, como o é Antônio das Mortes, ótima metáfora sobre um
Brasil do passado, repleto de incertezas. Transcorridos mais de quarenta anos,
muitas dúvidas ainda permanecem intactas.
BIBLIOGRAFIA:
BERNADET, Jean Claude. Brasil em Tempo de Cinema – Ensaio sobre o Cinema Brasileiro de
1958-1966. São Paulo. Cia das Letras. 2007
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